Sola Scriptura na busca da verdade

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A centralização do poder na igreja evangélica brasileira


Analisando as práticas de algumas igrejas ditas evangélicas, podemos perceber que existe ainda uma alma católica nas mesmas. Características da igreja romana são bem visíveis quando certas denominações atribuem aos seus ministros funções de mediadores entre Deus e o povo como se fossem sacerdotes ao modelo do Antigo Testamento, promovem o apego a objetos “sagrados”, fazem diferença entre o sagrado e o profano e principalmente quando centralizam o governo geral da igreja a apenas um oficial, a uma única autoridade máxima, assim como faz a Igreja Católica ao seu Papa. É sobre esta característica presente em algumas denominações evangélicas que quero comentar nesta postagem.

Veja como isso é comum em nosso evangelicalismo. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) tem sua figura central no Bispo Edir Macedo. O mesmo acontece com as igrejas Internacional da Graça de Deus e Mundial do Poder de Deus, com seus respectivos lideres, o Missionário R. R. Soares e o “Apóstolo”[1] Valdemiro Santiago. Na Igreja Apostólica Renascer a regra muda um pouquinho, pois quem está com o controle maior nesta denominação é o casal: o “Apóstolo” Estevam Hernandes e a “Bispa[2]” Sônia Hernandes, mas a centralização de poder continua, pois o governo é apenas de um casal. Nas Assembléias de Deus temos sempre os “pastores presidentes” das igrejas em cada Estado da Federação (p. ex. o Pr. Ailton José Alves é o Pastor Presidente das Assembléias de Deus aqui em Pernambuco) e o pastor presidente geral da CGADB (Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil), que atualmente é o Pr. José Wellington Bezerra da Costa.

Agora, fica a questão entre nós. Essa forma de governo eclesiástico é bíblica? Se fizermos um exame mesmo que superficial do Novo Testamento, veremos que não. Primeiro, porque a Bíblia nos informa que o cabeça da Igreja é Cristo (Ef. 5.23;1.22; 1 Co. 12.27). Ele é o líder supremo da igreja. Segundo, não se encontra no Novo Testamento essa forma de governo. A não ser, que se apele para a argumentação católica de que o Papa é o sucessor de Pedro no governo da igreja, mas acredito que isso, essas igrejas não ousariam fazer.

Thomas Witherow em seu livro A Igreja Apostólica, escrito no século XIX, aborda essa questão dizendo:


Também nenhum poder supremo foi conferido a nenhum oficial da Igreja, embora este se distinguisse por seus dons, seus sofrimentos, ou mesmo seus abundantes esforços pela causa de Cristo... Entre os apóstolos, não parecia que algum deles tinha a preeminência. Pedro é o único para o qual foi reivindicada a supremacia oficial em tempos posteriores; mas ele mesmo nunca reivindicou nenhuma supremacia para si mesmo; ele sempre agiu com os seus companheiros apóstolos como um simples pregador da cruz de Cristo; Pedro nunca é apresentado nas Escrituras reivindicando o oficio eclesiástico para si mesmo, ou como alguém que exercesse algum tipo peculiar de controle sobre os oficiais inferiores na igreja.[3]


Mas adiante ele diz:


Cristo é para a Igreja o mesmo que a cabeça é para o corpo humano; e que, assim como o corpo não pode ter duas cabeças – nem Cristo e o Papa, nem Cristo e um monarca.[4]


Mas se está errado este moderno sistema de governo eclesiástico, como é que a igreja deve ser governada? Embora não tenhamos uma exposição detalhada e sistematizada por parte da Bíblia sobre isso -- e isso acontece concernente a vários assuntos nas escrituras, podemos encontrar passagens no Novo Testamento que podem nos dar diretrizes para o governo da Igreja e nos mostrar (mesmo que de maneira parcial) como era o governo da igreja primitiva. Então, quanto mais nos aproximarmos do modelo de governo eclesiástico primitivo, mais bíblicos seremos e é isso que nos interessa, ou pelo menos deveria nos interessar.

Então, vamos ao trabalho. Cada igreja local era governada por uma pluralidade de presbíteros (At. 14.23; 20.17; Fl. 1.1)[5]não sabemos exatamente o número em cada igreja mas, sabemos que era mais de um, pois a bíblia usa o termo plural (presbyteroi). Eles eram eleitos pelas próprias igrejas locais (At. 14.23). A respeito do fato de serem eleitos, convém que se faça alguns comentários. Os únicos oficiais escolhidos durante o ministério terreno de Cristo foram os apóstolos. Esses foram escolhidos pessoalmente por Cristo. Mas após a ascensão de Cristo, foi necessário encontrar um substituto para Judas, o apóstolo que traiu Jesus (Mt. 26.47-49; At. 1.16) e em seguida suicidou-se (Mt. 27.5; At. 1.18). A escolha foi feita com base em alguns critérios e prerrogativas que o substituo deveria ter (At. 1.21,22) e logo, dois dentre aqueles discípulos foram escolhidos por parte da igreja (At. 1.23). Para decidir qual seria o novo Apóstolo, oraram a Deus e em seguida laçaram sortes que caiu sobre Matias. Veja que, a igreja escolheu os candidatos e a resposta final veio da parte de Deus.

Atos 6.1-7 fala-nos da escolha de sete homens para um determinado exercício, servir as mesas dos cristãos da igreja primitiva (v. 2)[6]. A escolha desses homens seria dirigida mais uma vez por algumas prerrogativas que os mesmos precisavam ter (v. 3). O ponto importante para nossa discussão é que a Igreja, ou seja, “irmãos” (v. 3) é que deveriam fazer essa escolha e não propriamente a liderança. Outro texto elucidativo é Atos 14.23 que nos diz: “E promovendo-lhes, em cada igreja, a Eleição de presbíteros...” (ARA). Os presbíteros deveriam ser ordenados por eleição nas igrejas. E com certeza essa eleição não era feita apenas pelos lideres das igrejas e sim pelos membros, já que estes últimos é que seriam governados.

Mas ainda resta algo a ser abordado. O que se deve fazer quando surge uma questão que não pode ser tratada ou resolvida pela igreja local? A Bíblia nos oferece a resposta. Atos 15 nos diz que na igreja de Antioquia, surgiu um problema referente à relação dos gentios com a lei de Moisés. Alguns crentes judeus diziam que os gentios convertidos deveriam ser circuncidados (v. 1). Paulo e Barnabé discordavam disso. Depois de haver muita discussão (v. 2), o problema foi feito conhecido a igreja de Jerusalém. Paulo e Barnabé foram então para a Igreja de Jerusalém e relataram tudo o que aconteceu (v. 4). Houve então uma reunião entre os apóstolos e os presbíteros que discutiram a situação e chagaram a um parecer comum, guiados pelo Espírito Santo (vv. 6-29). Em seguida é mencionado que, a carta com a decisão dos apóstolos e presbíteros que se reuniram em Jerusalém foi entregue aos irmãos de Antioquia e lida pelos mesmos (vv. 30-31). Disso, podemos aprender que, as decisões de grande importância na igreja não devem ser tomadas por um oficial apenas e sim depois de um concilio com vários pastores e presbíteros (já que não temos mais apóstolos) onde o problema é discutido e avaliado a luz da Bíblia e sob a direção providencial do Espírito Santo.

A Confissão de Fé de Westminter trata dessa questão no capítulo XXXI. Vejamos o que ela diz:


Seção I. – Para que haja melhor governo e maior edificação da Igreja, deverá haver aquelas assembléias comumente denominadas de sínodos e concílios. Em virtude de seu oficio e do poder que Cristo lhes deu para edificação, e não para destruição, pertence aos pastores e aos outros presbíteros das igrejas locais, citar tais assembléias e reunir-se nelas quantas vezes julgarem conveniente para o bem da Igreja.

Seção II – Aos sínodos e concílios compete decidir, ministerialmente, controvérsias quanto a fé e casos de consciência; estabelecer regras e disposições para a melhor ordem do culto publico de Deus e governo de sua Igreja; receber queixas em casos de má administração e autoritativamente saná-las. Seus decretos e determinações, sendo consoantes com a palavra de Deus, devem ser recebidos com reverência e submissão, não só pela harmonia com a palavra, mas também pela autoridade sob a qual são feitos, como sendo uma ordenação de Deus, designada para isso em sua palavra.

Seção III – Todos os sínodos e concílios, desde os tempos apostólicos, quer gerais, quer particulares, podem errar, e muitos e muitos tem errado; portanto, eles não se constituem regra de fé ou prática, mas podem ser usados como coadjuvantes de ambas as coisas.[7]


Aprendemos então, com os dados bíblicos e com uma correta compreensão deles que o governo e autoridade maior na igreja de Cristo não pode se centralizar em apenas um oficial ou a um grupo seleto. Infelizmente muitas igrejas hoje, parecem estar cegas quanto a um fato tão patente nas Escrituras. Mas bom repensarmos nossas práticas e opiniões à luz da palavra de Deus e do bom senso. Não nos deixemos influenciar por uma herança católica que insiste em se manter no evangelho brasileiro e sempre que pudermos façamos conhecidas essa e outras verdades bíblicas, sempre em amor.


[1] Não estou menosprezando aqui a imagem de Valdemiro Santiago, nem de quem quer que seja, com as aspas na palavra Apóstolo. Apenas não acredito que o oficio de Apóstolo esteja em voga hoje, visto ser um ofício temporal e fundamental (Ef.2.20).

[2] Não estou menosprezando aqui, a imagem da Sônia Hernandes com as aspas na palavra Bispa. Apenas acredito que o oficio de Bispos (presbíteros) e pastores biblicamente está destinado aos homens, já que Paulo proíbe que a mulher ensine (pastor) ou exerça autoridade sobre o homem (presbítero) na igreja (1 Tm 2.12,13).

[3] Witherow, Thomas. A Igreja Apostólica; o que significa isto?.São Paulo: Os Puritanos, 2005. p. 59-60

[4] Ibid. p. 61

[5] Convém fazer aqui um esclarecimento. As palavras “presbítero” (gr. Presbyteros) e “bispo” (gr. Episkopos) são usadas no N.T. para se referir ao mesmo oficio. Isso fica bem claro na leitura de Tito 1.5-7 onde Paulo não faz distinção entre Bispos e Presbíteros.

[6] Muitos acreditam que nesta passagem esteja relatada a origem do oficio diaconal, pois o verbo “servir” (diakonein), aparece no versículo 2, muito provavelmente aludindo ao oficio de diácono.

[7] Confissão de Fé de Westminster Comentada por A. A. Hodge, Cap. XXXI e seções I,II e III. São Paulo: Os Puritanos 2ª Ed., 2008. p.501,505.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Ministério Profético Segundo a Bíblia

Este estudo tem por objetivo fazer uma ampla análise do ministério profético apresentado na Bíblia. É de importância crucial que o povo de Deus conheça este assunto, ou pelo menos tenha uma noção básica dele, pois o tema “profetismo” tem sido muito distorcido nos nossos dias por alguns grupos eclesiásticos e sectários. Portanto, este estudo visa responder perguntas do tipo: onde, quando e como começou o ministério profético bíblico? A profecia no Novo Testamento é igual a do Antigo Testamento? Devemos acreditar que existam profetas hoje? Qual era a função dos profetas?

É comum atualmente, vermos no meio evangélico, pessoas serem chamadas de profetas, ou serem referidas como possuindo o dom de profecia, ou ouvirmos relatos de mensagens espirituais que são proferidas e acabam se cumprindo, ou coisas desse tipo. Na vasta maioria das vezes, não há conhecimento por parte dessas pessoas do que de fato seja o ministério profético de acordo com a Bíblia. Dessa forma, elas acabam falando do que não conhecem e acreditam em algo não porque tenha convicção de que suas práticas e crenças sejam bíblicas, mas por conta de suas próprias experiências ou de experiências de outrem, ou até mesmo, porque é a posição de sua igreja.

Contudo, desejamos fazer uma análise desse tema e tentar descobrir o que de fato a Bíblia ensina acerca desse assunto. Para isso, recorreremos a ambos os Testamentos para termos uma visão geral do surgimento, modelo, natureza e propósito do ministério profético. Nessa primeira parte do estudo daremos uma breve introdução ao profetismo do Oriente Médio Antigo, e depois falaremos sobre o surgimento do profetismo na nação de Israel. A natureza, método e outras características ficarão para os próximos estudos.


1. A profecia no Antigo Oriente Próximo

Homens que falavam em nome de um ser divino, que prediziam o futuro e comunicavam algum tipo de mensagem sobrenatural, não eram particularidades do povo de Israel. As demais nações do mundo antigo também possuíam os seus profetas. Alguns escritos históricos da importante cidade-estado de Mari revelam a existência de uma corporação de profetas que se especializavam em várias habilidades, inclusive a previsão do futuro[1]

Um belo exemplo desse tipo de profetismo pode ser lido nos capítulos 22-24 do livro de Números. O texto nos conta a história de um profeta pagão chamado Balaão, que é contratado pelo rei da Nação de Moabe para amaldiçoar a nação de Israel.

Mas existia uma diferença atenuante entre o profetismo de Israel e o dos outros povos. Essa diferença é muito bem explicada por Eugene Merrill em seu livro História de Israel no Antigo Testamento, onde ele comenta o ato profético de Balaão:

Imagina-se que a técnica usada por Balaão consistia em usar o poder da palavra proferida unida a capacidade de prever o futuro, trazendo a existência aquilo que estava sendo solicitado. Assim, Balaão diferenciava-se do nabi (Profeta) ou ro’eh (Vidente) do Antigo Testamento, que eram apenas mensageiros que proclamavam a vontade de Deus, mas não a manipulavam. Balaão agiu, ao menos, como um Barû ou mahhû – um profeta que se utilizava de vários meios para discernir e interpretar os presságios. Ele também era visto como um manipulador, ou seja, alguém que possuía a capacidade de persuadir os deuses.[2]

A particularidade do profetismo de Israel era sua forma, pois os profetas serviam apenas como canais da revelação de Deus e não como manipuladores dos deuses e da mensagem divina.


2. O surgimento do profetismo em Israel e seu propósito

Podemos encontrar as origens do ministério profético bíblico nas páginas do Antigo Testamento. Ele iniciou-se com Moisés à época do êxodo de Israel. Antes disso, Deus se revelava pessoalmente aos lideres dos clãs patriarcais, como aconteceu com Abraão, Isaque e Jacó. Mas a época do êxodo a nação de Israel já possuía um contingente de mais de 1 milhão de pessoas e agora Iavé iria designar homens para servirem como porta-vozes de sua mensagem, não mais se revelando de maneira exclusiva aos lideres de clãs.

Israel tinha passado por uma emocionante experiência na qual Deus se revelou pessoalmente ao povo no monte Sinai (Dt 18.16). Israel ouviu a voz trovejante de Deus e essa experiência assustadora fez com que eles pedissem um mediador, um porta-voz que trouxesse as mensagens de Deus.

Mas mesmo antes desses acontecimentos podemos ver alguns indícios do inicio do movimento profético em Israel. Veja o que diz Êxodo 4.14-16: “Então se acendeu a ira do Senhor contra Moisés e disse: Não é Arão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; e eis que ele sai ao teu encontro e, vendo-te, se alegrará em seu coração. Tu, pois, lhe falarás e lhe porás na boca as palavras; eu serei com a tua boca e com a boca dele e vos ensinarei o que deveis fazer. Ele falará por ti ao povo; ele te será por boca e tu lhe serás por Deus” (ARA).

Por falta de eloqüência, Moisés achava que não poderia servir como veículo da palavra de Deus ao povo. Deus então, diz que Arão lhe servirá como porta-voz. É interessante a analogia usada por Deus no versículo 16. Iavé diz que Arão será para Moisés como uma boca comunicando as suas mensagens, e Moisés será como um Deus para Arão comunicando a sua mensagem para o mesmo entregue-a ao povo. Entendemos então, que um profeta era a boca de Deus, por assim dizer. As suas palavras eram as palavras de Deus e, portanto, autoritativas.

Outro versículo importante para entendermos a função profética dos tempos veterotestamentários é Êxodo 7.1 que diz o seguinte: “Então disse o Senhor a Moisés: Vê que te constitui como Deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta”(ARA).

Esse versículo nos mostra um quaro interessante. Em situações normais Deus decide se revelar. Objeto dessa revelação é o ser humano. Para revelar-se ao ser humano, Deus se utiliza de meios, de veículos que levem a sua mensagem, e esses veículos são os profetas. O versículo diz que Moisés seria como “Deus” sobre Faraó e Arão seria o profeta que levaria a mensagem de “Deus”.

Então veja que, o ministério profético, surgiu em Israel pouco antes do Êxodo, com o propósito de Deus comunicar sua vontade a seu povo através de meios humanos. Esses profetas traziam a revelação de Deus ao povo, serviam como a boca de Deus.

Nas próximas postagens estarei explicando a natureza dos discursos proféticos e o seu método. Essa primeira parte serviu apenas como introdução para este assunto.



[1] MERRIL. Eugene, História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p.85

[2] Ibid. p. 85

Será que é mesmo língua dos anjos?

Quando se debate a natureza das línguas faladas pelos crentes da igreja primitiva, é comum dizer que esse fenômeno era uma capacitação divina pela qual o crente falava em um idioma estrangeiro nunca aprendido antes, comunicando assim, um discurso inspirado. Visto que, as “línguas” que se fala hoje no movimento pentecostal não são idiomas estrangeiros de fato, e sim, sílabas desconexas sem sentido algum, conclui-se então, que o fenômeno de glossolalia decorrente nas igrejas pentecostais de hoje não corresponde ao dom de línguas que o Novo Testamento nos apresenta.
Durante debates entre pentecostais e cessacionistas, o segundo grupo costuma expor o argumento acima descrito, tentando realçar a diferença entre o dom bíblico e o fenômeno dos nossos dias. Para isso, são citadas passagens como Atos 2.4-11, onde vemos que os cento e vinte discípulos no dia de pentecostes, falaram em idiomas e dialetos de vários povos daquela época, e depois outros textos e considerações ainda são expostos. Mas muitos pentecostais ainda se defendem desse ataque dizendo que quando os crentes primitivos exerciam o dom de línguas não falavam apenas em idiomas humanos, mas também em idiomas angelicais desconhecidos aos humanos.
Um belo exemplo desse ponto de vista pode ser lido no livro O Batismo no Espírito Santo e com Fogo de Anthony D. Palma. Vejamos o que ele diz:

É a glossolalia falar numa língua humana (xenolalia)? Atos 2 é certamente decisivo no que se refere a essa possibilidade. Além disso, existe uma afinidade lingüística entre Atos 2.4 (“outras línguas” – heterais glôssais) e a citação feita por Paulo de Isaias 28.11, que contém a forma composta heteroglossais, que também significa “outras línguas”.
A posição mais plausível é de que a glossolalia possa ser compreendida como falar em línguas, mas que as línguas podem ser tanto humanas quanto angelicais/celestiais.[1]

Obviamente, a intenção de Palma nesse trecho de seu livro não é fazer uma defesa aos ataques daqueles que dizem ser as línguas exclusivamente idiomas humanos, mas apresentar a natureza da glossolalia no Novo Testamento de arcodo com sua visão pentecostal clássica. Mas citei esse livro por que a essência do argumento é apresentada nele de maneira bem clara. Apesar de Palma não citar nenhum versículo para apoiar seu argumento, podemos deduzir que ele tem em mente 1 Coríntios 13.1 que diz: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” ARA.
Mas há problemas sérios com essa argumentação. Primeiro, porque não atenta para o caráter hipotético do versículo. Paulo diz que “ainda que falasse nas línguas dos homens e dos ‘anjos’” e não tivesse amor, seria uma ação sem valor e sem propósito real. Assim como no português, o texto grego está no presente do subjuntivo, e clausula grega ean (ainda que, mesmo que, etc.) denota condicionalidade e incerteza. Assim, não se pode usar esse versículo para provar que a glossolalia praticada na igreja primitiva envolvia a língua dos anjos. 
    Simon Kistemaker parece concordar com essa interpretação. Comentando 1 Coríntios 13. 1 ele diz:

Com essa afirmação condicional, Paulo indica que ele próprio não se ocupa de falar em línguas no culto público (1 Co 14.19). Ele parece estar dizendo: “Suponhamos que eu, como apóstolo do Senhor, tenha o mais alto dom possível de linguas, aquelas que os homens usam e até mesmo aquelas que os anjos usam. Como vocês, coríntios, me admirariam, até me invejariam e desejariam ter um dom igual!” [2].

Além disso, esse é o único versículo em todo o Novo Testamento em que aparece a expressão “língua dos anjos”, não havendo textos paralelos a ele nesse sentido.
Pode ser somado a isso o fato de algumas outras expressões nos versículos seguintes serem claramente hipotéticas. Por exemplo: Paulo era apóstolo, e como apóstolo servia como canal de revelação, então ele profetizava. Mas apesar de profetizar, não conhecia todos os mistérios e toda a ciência. Se fosse assim, Paulo seria onisciente. Paulo tinha fé, mais nunca transportou montes através dela. Paulo nunca distribuiu seus bens para os pobres e nuca entregou o seu para ser queimado pelos outros. Então Paulo possuía o dom de línguas (1 Co 14.18), mas não falava nas línguas dos anjos.    
Outro problema que esta interpretação enfrenta é o fato de que nenhuma menção do exercício do dom de línguas no Novo Testamento nos informa que as línguas eram idiomas angelicais. E concernente a isso é bom que façamos um breve exame dessas informações.
O dom de línguas só é mencionado nos livros de Marcos, Atos dos Apóstolos e na Carta aos Coríntios. O texto de Marcos 16.17,18 não é relevante para nosso estudo. Primeiro, porque a autenticidade destes versículos é bastante discutida entre os estudiosos da Bíblia e segundo, porque não nos dá muitas informações sobre a natureza das línguas.
A próxima menção a línguas é Atos 2, e lá podemos ver claramente que as línguas faladas no dia de Pentecostes foram idiomas estrangeiros. Vejamos o texto:

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. Ora, estavam habitando em Jerusalém judeu, vindo de todas as nações debaixo do céu. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu à multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. (At 2.4-6 ARA).

É certo aqui que o milagre estava no falar dos discípulos e não no ouvir daquelas pessoas, pois o versículo 4 diz que eles falaram em outras línguas, línguas essas que vários judeus e prosélitos que estavam em Jerusalém naquele dia falavam (At 2.7-11). No ouvir daquelas pessoas (vv. 8,11) não havia nada de milagroso. A audição deles servia apenas de testemunha ao milagre. É interessante notar também que as palavras que são traduzidas por “línguas” ou “língua materna” são Glossa (vv. 4,11) e dialektos (v. 8). Que sempre são usados no Novo Testamento e na LXX, para se referir a idiomas humanos, excetuando-se 1 Coríntios 13.1, onde é mencionado a glossa dos anjos.
Após essa passagem, as línguas só voltam a ser mencionadas em Atos 10. A uma provável referência a elas no capitulo 8, que nos fala como os samaritanos foram aceitos na igreja de Jerusalém após recebem o Espírito Santo. O verso 18 deste capítulo nos informa que, Simão, o mago, viu que os samaritanos receberam o Espírito quando os apóstolos impuseram as mãos sobre os mesmos. É que quase certo que houve um sinal externo que chamou a atenção de Simão e provavelmente este sinal foi a glossolalia, ou seja, o falar em línguas. Mas nada nos é informado nesta passagem sobre a natureza das línguas, então passemos para Atos 10.
Atos 10.44-46 nos diz que, enquanto o Apóstolo Pedro pregava na casa de Cornélio o Espírito Santo caiu sobre todos os que o ouviam, inclusive o próprio Cornélio. O verso 46 diz que aqueles prosélitos falaram em línguas (Glossais). No Capítulo seguinte, Pedro em sua defesa perante a igreja de Jerusalém diz que o Espírito Santo caiu sobre aqueles prosélitos como sobre os próprios judeus no principio (At 11.15), não havendo nenhum indicador de que as línguas faladas na casa de Cornélio fossem diferentes.
Sobre esta passagem O. Palmer Robertson diz o seguinte:

A experiência com o Espírito Santo em Cesaréia correspondeu ao Batismo do Espírito que viera sobre os discípulos no dia de Pentecostes. Se o dom de falar em línguas, em Atos 2, envolvia falar num idioma estrangeiro nunca aprendido, então a mesma explicação se aplica a experiência de línguas como a manifestada entre os gentios de Cesaréia[3].

O mesmo principio deve nos guiar na interpretação de Atos 19, onde as línguas são descritas explicitamente pela terceira vez neste livro. O texto nos diz que Paulo encontra em Éfeso, alguns discípulos de João Batista, que não conheciam o Espírito Santo (ou o Batismo com o Espirito Santo). Após serem batizados em nome de Cristo, Paulo impôs as mãos sobre eles e então receberam o Espírito e “tanto falavam em línguas como profetizavam” (At 19.6).
A respeito desta passagem O. Palmer Robertson observa que:

Enquanto que, nenhuma descrição especifíca caracteriza o falar línguas em Éfeso, o uso de idioma idêntico utilizado para descrever o fenômeno em Éfeso, como fora utilizado em narrativas anteriores em Atos, consistentemente sugere que a natureza das ‘línguas’ em Éfeso correspondia às línguas mencionadas por Lucas ao longo do livro de Atos[4].

Então, fica certo que a natureza das línguas mencionadas no livro de Atos é puramente idiomática e humana. Mas será que esse é o caso também na Primeira Carta de Paulo aos Coríntios? É o que pretendemos responder a seguir.
Os capítulos 12-14 de 1 Coríntios foi destinado a uma abordagem dos dons espirituais por parte de Paulo e serviu não só para regulamentação do uso dos dons, mas também para esclarecimentos acerca de suas naturezas e características. Paulo começa o capítulo 12 desta carta afirmando que não quer que os Coríntios sejam ignorantes a respeito do assunto dos dons. E com base nisso entendemos que podemos aprender algo respeito da natureza das línguas aqui também.
A partir do versículo 8 Paulo passa a listar alguns dons espirituais e no versículo 10 ele menciona o dom de “variedades de línguas”. A sentença grega é gene glossôn que pode ser traduzida como tipos de línguas ou família de línguas. Muito provavelmente é uma referência as diversas classes de línguas que existem no mundo, como por exemplo: Linguas Neolatinas, línguas semíticas, etc. Não há diferença entre essas línguas descritas aqui e as que ocorreram em Atos, muito pelo contrario, o caráter idiomático do dom de línguas é enfatizado aqui, já que é mencionado classes de idiomas humanos.
            A próxima referência é 1 Corintios 13.1, mas não precisamos nos deter neste texto, pois ele já foi analisado ainda há pouco.
            Então, passemos a analisar um verso bastante usado por pentecostais. 1 Coríntios 14.2, diz  que,
quem “fala em línguas, fala a Deus e não a homens, visto que, ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”. A argumentação é que se ninguém entende o conteúdo da língua em que se está falando, logo o idioma não é humano e sim celestial ou angelical. Mas será que é isso mesmo o que o versículo quer dizer?
            Devemos primeiramente atentar para o fato de que Paulo está escrevendo para uma congregação grega que estava dando um alto valor ao dom de línguas e menosprezando os demais, além de estar usando este dom de maneira incorreta. Nos versículos posteriores Paulo explica que o dom de línguas só tem valor na congregação local se for interpretado, para que a igreja entenda o discurso e seja edificada (vv. 5-6). Então, se numa congregação como a de Corinto, a maioria das pessoas falassem grego ou latim, quando alguém falasse em hebraico, muitos não iriam entender, e assim, não seriam edificados.
            Paulo diz que uma pessoa fala a Deus porque ninguém o entende. A sentença “visto que”, visa explicar a sentença anterior que é: “aquele que fala em outra língua, não fala a homens senão a Deus”.
            Mas ainda é nescessário explicar o sentido da palavra mistérios que aparece neste versículo. No meio pentecostal é comum se ouvir esta palavra com um sentido místico, como um sinônimo de atuação de Deus ou coisas desse tipo. Mas um exame dessa palavra no Novo Testamento revela o que de fato ela significa. Essa palavra ocorre aproximadamente 28 vezes no Novo Testamento e excetuando-se 2 Tessalonicenses 2.7, todas elas falam de algo que é revelado[5]. O que esta expressão na verdade nos informa, é que o dom de línguas é um dom revelacional. Mas esse é um assunto que foge ao escopo deste artigo, podendo ser tratado numa postagem posterior.  
            Interessante, contudo são os versículos 10 e 11. Eles dizem assim: “Há sem duvida, muitos tipos de vozes no mundo; nenhum deles, contudo, sem sentido. Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro pra mim”. (ARA).
            É evidente neste texto que a palavra “voz” tem o significado de idioma. A metáfora que Paulo usa no versículo 11 deixa isso bem patente. Ele diz que se não entender o sentido da voz daquele que fala será estrangeiro para ele e vice-versa. Note também que ele diz que existem vários tipos de vozes no mundo, não vozes angelicais do céu.
            Mas interessante ainda é a citação que Paulo faz de Isaias 28.11 no versículo 21. O texto do Antigo Testamento fala claramente de idiomas humanos e como diz O. Palmer Robertson:

            1 coríntios 14 emprega uma situação do Velho Testamento que claramente fala de idiomas estrangeiros para explicar o fenômeno em Corinto (1 Co 14.21 cf. Is. 28.11,12; Dt 28.49). Como resultado, pode-se concluir que, ou Paulo está fazendo uma aplicação de uma passagem do Velho Testamento que não é estritamente aplicável, ou que as línguas de 1 Co 14 eram idiomas estrangeiros como antecipadas na passagem do Velho Testamento citada por Paulo[6].   
           
            Outro detalhe importante é que Paulo neste versículo usa a expressão “outras línguas”. Expressão essa é quase idêntica a usada em Atos. 2.4 A diferença é que em 1 Coríntios usa-se um substantivo composto (Heteroglossais) e em Atos aparecem duas palavras (heterais glossais), mas essencialmente, não há nada de diferente.
            Após fazermos esse breve exame da natureza das línguas no Novo Testamento, convém dizer também que não encontramos em toda a Bíblia nenhum caso em que anjos falam em seu próprio idioma. Eles sempre falam em linguagem humana, inteligível. Não que eu acredite que os anjos não possuam linguagem própria. Eles foram criados antes de nós, seres humanos, e com certeza tem seu  próprio idioma, mas não há base para se dizer  que a igreja primitiva falou esse idioma (ou idiomas) quando exerceu o dom de línguas, nem tampouco, que o moderno movimento pentecostal o fale agora. Não há como sustentar tal opinião a luz da Bíblia.
            Não é nossa intenção meter o bedelho na experiência de ninguém, mas a Bíblia deve julgar nossas experiências e cada um de nós deve examinar as próprias experiências a luz da palavra de Deus.   


[1] PALMER, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p.68
[2] KISTEMAKER. Simon, Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004. p. 627 (Grifo nosso).
[3] Robertson O. Palmer, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão Das Línguas e Profecias Hoje. São Paulo: Editora Os Puritanos. p. 39
[4] Ibid. p. 40
[5] Confira as passagens: Mt 3.11; Rm. 11.25; 16.25-26; 1 Co 2.1; 4.7;13.2; Ef 1.9; 3.3,4,9; 6. 19-20; Cl 1.25-26; 2.2; 4.3; 1 Tm 3.9,16; Ap 1.20; 17.5-7.
[6] ROBERTSON. O. Palmer, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão Das Línguas e Profecias Hoje. São Paulo: Editora Os Puritanos. p. 40,41